quinta-feira, 3 de novembro de 2016

finados

Nesse dia de finados, enterro de vez toda energia desqualificada, de zombaria, de ilusão, de maldade travestida de inocência, de desilusão, de rasteira que já tenham me ofertado. Enterro as flechas que buscaram e buscam me atingir, fecho meu corpo como quem fecha a tampa do sarcófago. Me cubro de joias de mistério para ser a minha própria lenda. Enterro todo olhar e percepção vindos de fora, enterro todas as relações de todas as vidas. Enterro meus erros, enterro minhas anomalias, minhas doenças, minhas cascas e feridas, enterro o pus da minha arrogância, fervendo no solo e fermentando o amanhã. Enterro manias, padrões passados, sabendo ainda o processo de luto pelo novo ser construção. Enterro não como quem enterra algo para esquecer. Não enterro como quem foge. Não enterro como quem mata. Tudo o que enterro me faz hoje em Terra. Enterro para adubar e agradecer a Mãe Gaia, que se nutre com a energia orgânica e a beleza das marcas de nossos passos além-vidas. Enterro para fertilizar o solo sagrado e transmutar tudo o que já foi ido, enterro todo o meu passado para florescer novos futuros. Se mente, não há semente - semente é Verdade enterrada para brotar. Não há nada que me tire da agoracultura, de ordenar que me cavem a memória as minhocas, pra arejar os tempos. Ainda há muito o que enterrar, muito ainda ser sempre velório. Um dia me enterro por completo, daqui a muitas existências. Hei também de nascer muito mais, de confiar mais em mim divinamente sendo. Meu caminho único de redenção, nascer para mim no esplendor do Santo Nome. Agradeço todo o bem e todo o mal que encontrei em meus caminhos, pois todos eles me fazem ser o que mereço e necessito ser. Que eu ainda possa enterrar medos, mágoas, traumas, sentimentos, lembranças, inseguranças, toda a sombra, enterrados em Luz. Que eu continue me enterrando, nas areias, nos mangues, nas ondas, nas montanhas, nas pedras, nos fósseis, nos ossos, no pó, nas estrelas. Que cada enterro meu, pessoal ou a mim empurrado, seja em breve nova vida. Me descubro no passar dos dias, muito maior do que já era e também bem miúdo diante do Todo. O trono do Imperador é maior que qualquer ego e Aquele que nele se senta glorifica qualquer coração ao Amor Sublime. Potestade e humildade sendo co-criados na obra de arte mundana e espiritual. Cada curva, cada reta, um canteiro pedindo flor. Cada regar, cada rezar, cada arar, cada nutrir, cada verbo a declarar o existir, enterro e faço nascer, pelo bem de toda a natureza que me nina, nos colos do universo.





Performance IMPERMANÊNCIAS - Performers Sem Fronteiras

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