Não chora não, neném, não chora não. E a mãe a balançar o neném a ponto de golfo. Estava quente e tudo suava. O neném, sem dúvida, a sentir o peso do mundo, sentia o magma incandescente, o profundo do planeta, desejava o fresco. Chora não, neném. E a mãe ganhava aos poucos as sobrancelhas enternecidas e piedosas de Maria. O mundo ruía, se roía, era puro ruído. E estava surdo. O ônibus passou encrencando com outros veículos e seu motorista estava em ebulição como o neném. A buzina também chorava e era um lamento de tormento duro. Tudo se rasgava por existir. A mãe ao mesmo tempo lia ali o futuro de sua própria velha e regressava à infância, mirava o vazio e entrava dentro do neném que de nada daqui sabia. Não chora não, neném. Era uma prova de fogo... E ia vibrando o colo, puxando a energia do astral sem saber de magia, de misticismo, de alquimia. E assim, a mãe melhorava o mundo. Melhorava, pois, por dentro também chorava - não por si, mas por ver o mundo batendo no filho. E compreendia, sem ter nada a fazer, e assim acalentava toda a dor que nascia. Compadecia o dia. Eu estava no ponto de ônibus, esperando meu condutor que também podia chegar chorando e ali pude penetrar os lagos frescos dessa mãe: virei seu filho. Rápido. Decidi logo deixar os lagos, deixar tudo isso pro neném que era dela. Nada ali era meu, eu não podia. Não era herança minha, eu que me meti. Fugi com o olhar trôpego, mente expandida e caí novamente no mundo, no ponto: de ônibus, nevrálgico, de ebulição, de fuga, de espera, final. E como fiquei tonto.
Quis tudo tocar e queimei minhas mãos porque o mundo estava ardendo em febre. Eu que estava cansado de mim, sem possibilidades de me fazer outro naquele instante, senti minha coluna se desverticalizando e querendo deitar no chão, virar cidade. Tudo me sugava para baixo, o cimento me queria. Eu que não merecia, eu que buscava ajuda, firmava a mente pra poder voar daquele ponto, eu que estava carente do mundo e abracei uma árvore às quatro horas da cidade, uma avenida cheia, preta, carregada das camadas de passado, cansada de andar por ela mesma, pude parar o tempo e lamber a poeira, ouvir o ruído, não me conter. Abracei a árvore por não ter mãe ali pra abraçar. Todo o mundo era neném, e tudo derretia. Eu que estava vata, pitta, kapha, eu que estava vasto, eu que estava peso. Eu que era tudo o que podia reunir no ponto não aguentei, chorei de guela arranhar e ninguém ouviu porque nada ouvia. Queria ser Buda como aquela árvore preta de pó de carro, trancafiada num canteiro-prisão, com a terra seca que parecia mais sujeira de tapete velho. Mas sorridente, nada a interrompia, só subia ao céu que podia subir. A única vida ali silente, meditativa, contemplativa, coerente, agradecida, sabedora de todo mistério da vida. Eu abracei a árvore e senti ser ela. Ela olhou para mim, verticalizou minha coluna - meus pés puderam andar até o ônibus, subir as escadas, desmoronar num banco, suar e derreter sem nojo, dormir trajeto e aportar em casa. Em casa, sim, pude encontrar os lagos frescos que eram de minha sesmaria e me afogar do dia sem medo de perder o ar. Ali, todo o aconchego. Não chora, não, neném. Não chora, não.

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