A mulher, dorida do mundo, deitou em sua cama dura e se pôs a chorar. Naquela noite recusou o amigo, o trabalho, a presença, o presente. Abraçou-se com dó. Doía-lhe a cabeça e seus pés eram duas âncoras lançadas ao mar. Depois parou de chorar porque não teve mais forças. Já era toda mar. Ficou confusa, olhar vazio, olhos inchados, teve mais pena de si, evitou o espelho. Evitou a espada. Não conseguia, era muito. Seus cabelos não estavam arrumados, naquele dia não tinha tomado banho, sentiu-se impotente e até ligou a televisão. Sentiu o estalo da energia estática chamando os pêlos do braço e se afastou. Não queria contato. Adormeceu, deitada em cama dura. A programação do canal saiu do ar, era alta a madrugada. Apenas o apito do som catódico no ar e a luz de azul mentiroso, consoladora do aturdimento solitário que o aparelho provocava: falso colo de mãe. Mas dormiu e foi pesada, suas âncoras ainda buscavam o fundo, rompiam águas, verticais.
Quando o estrondo dos pés tocou a areia mais profunda do mar que adentrou, o chão tremeu sutil e ali, pôde acordar e abrir seus olhos. Primeiro, em um lampejo de milésimo, fragmento de tempo escasso, olhou bem de frente para si mesma, em imagem contida num grande espelho bordado de brilho. Em uma mão uma rosa, na outra, uma espada. Estava soberana e forte como sempre e foi bom lembrete rever-se assim. Mas foi breve, pois o susto havia tomado-lhe de assalto e seus olhos fecharam com espanto de persianas. Abriu novamente os olhos e nova consciência. Ali viu em sua frente uma criança. Criança do mar, com algas escuras entre os cabelos, cracas nos cotovelos, crinóides nos joelhos, corais em suas pequenas unhas. Coração de vela de nau. Na ponta de sua língua se fixara uma pérola perfeita - a criança só devia mesmo fazer uso de boas palavras para ter consigo tão perfeita joia. De fato, as primeiras palavras que a criança do mar destinou à mulher, estendendo as mãos num gesto de borbulha, foram doces e foram assim:
- Vem cá, tia! Vem cá, tia. Vem cá, tia...
E cada palavra, ao mesmo tempo que era muda de som, ecoava reverberando em sua mente. Não era coisa de tele-visão, era conexão de tele-empatia. E quando a mulher confiou suas mãos desconfiadas às mãos escamadas da criança do mar, respondendo ao convite, algo de único se deu nesse encontro. A mulher foi arrastada veloz nadando baixo pelas areias, levantando nuvens de finos grãos como uma arraia festeira normalmente faz. As âncoras tinham ficado para trás, como um marco, um registro de renascer.
- Vem cá, tia... - repetia a criança do mar.
- Mas estou indo, pode me levar! - respondia a mulher já sem temer. Era bom nadar.
Ao chegarem em frente a um cânion submerso, com profundidade maior do que havia experimentado naquele mar já tão gigante, a criança com um sorriso de brilho e um olho de peixe fez sinal com a cabeça, em novo convite: entrar naquela fossa abissal de escuridão, com níveis aparentes - como edifícios incrustados nas pedras, se assim a mulher pudesse realizar uma comparação - e também com um fundo que não saberia calcular. Não teve jeito: o sorriso de uma criança do mar é o convite mais sincero e ali, já salgada de tanto mar, não tinha nem desejo de recusa, nem lembrava de cama, de choro, de dor.
- Vem cá, tia...
Deram mãos. Foram, agora mais lentos. Mais fundos. Tinha no movimento algo de respeito, de ir com calma. A luz foi rareando; vez em quando passava um peixe de faixa neon a brilhar um mistério distinto. E foi tudo ficando mais escuro, a cegueira foi se experimentando nos olhos e também não vinha desespero; um empuxo os enredava, era tudo muito lento, era tudo muito sal, era sim colo de mãe. Fechou os olhos e dormiu nadando. Se ali houvesse tempo, seria coisa de anos.
E quando foi chegando ao novo fundo, onde a criança do mar queria chegar com a mulher, a luz verdadeira e azul foi dilatando, o chão de prata foi irradiando e o som de berço foi soando. E a criança abraçou a mulher e coração com coração se parearam, num choque de cura, peixe elétrico. A mulher ganhou espada, espelho, rosa, cabelos de estrela do mar e um maracá de conchas sublimes. Seus olhos também de peixe: só assim poderia mirar aquele mundo d'água para se lembrar.
- É só tocar o maracá, tia! - ensinou a criança.
E ela girou o maracá, tocou o segredo das conchas, abriu um portal, o mar vibrou, tudo mais se acendeu. Já não tinha mais criança por perto. Só pôde ver sentindo. Mãe D'Água estava em trono soberano:
- Essa rosa você me entrega... Vem. Senta no meu colo, quero te revelar um segredo...
A mulher sentou e era só paz, nada mais podia ser. A Mãe tinha seios muito fartos e eram macios de se encostar a cabeça. Seu coração era o que fazia toda a vida do mar pulsar. A Mãe tirou um espelho de mão de seus cabelos e mostrou à mulher seu próprio reflexo. Era ela ali aninhada no colo a criança com algas escuras entre os cabelos, cracas nos cotovelos, crinóides nos joelhos, corais em suas pequenas unhas. Nem se espantou porque a isso nem mais se permitia. Deixou invadir seu ser apenas o sentimento de alegria e ali só queria morar. Se encaixou mais ainda no colo e a Mãe quis mostrar algo mais sério. Pegou uma ostra muito grande mesmo e pediu para que a mulher a abrisse. Ela tentou, tentou, tentou, tentou, usou de força, mas suas mãos não davam conta. Ficou ali por longo instante a machucar unhas e a própria ostra que era dura. A Mãe observava. Ali estava um segredo primoroso e ela não conseguia saber. Foi ficando cansada, abraçou-se com dó e chorou mais. Olhou para a Mãe, pediu desculpas.
- Veja só como tenta abrir o meu mais querido presente a ti, peixinho. Sinta como você se coloca diante desse mistério... Não será com suas unhas, com suas mãos, com seu desespero. Uma ostra se abre com o coração. Você ganhou uma espada, não é?
A mulher-peixinho-criança-do-mar novamente se apressou. Era a esperança atropelando. Já ia utilizar a ponta da espada para abrir a ostra, mas a Mãe D'água a paralisou junto com as ondas na superfície:
- Essa espada não é para a ostra. É para o seu coração. Aponta para ele. Não tem fio de corte, não mata, faz viver. Usa como chave, não teme o que o brilho da verdade resplandece em teu juízo.
A espada então, calma e respeitosa, perfurou seu peito e ali o peixe se debateu. A Mãe entoou um cântico - as ondas dessa frequência perpassavam o buraco que havia sido feito no coração. Deu ali dor de barriga, anseio de vômito. Mas mesmo assim tudo se tranquilizava.
A ostra se abriu lentamente e nela o grande ensinamento pôde ser observado. Dentro da casca dura: o quarto da mulher, a cama dura, o choro, sua vida, cada segundo, de vidas de trás, do agora, lá da frente. A mulher viu-se areia processando um trabalho meticuloso ao qual foi destinada a cumprir. Trabalho único. A pérola nascia de um grão intruso, era bruto, era feio, era pequeno. Mas era ali o começo da pérola. A Mãe, então, despetalou a rosa oferecida, comeu duas de suas pétalas e com as que sobraram, fez unguento para o coração da mulher-peixinho-criança-do-mar-pérola-preciosa. Continuou cantando e usando as pétalas para curar. Mãe D'água pediu para que ela dissesse alguma coisa. Era preciso. Dali saiu uma bolha gigante e da ponta da língua, cuspiu uma pérola.
- Já sabe do segredo? Trabalha, paciente, forte, respeita. Lava com sal o início de grãos intrusos - cada um só pode fazer uma pérola. Já tem a sua. Trabalha somente nela. Um dia outra criança te buscará e te levará para entregar o seu trabalho pronto para o Soberano, a Força Maior. Coloco essa pérola agora dentro de seu peito, sente. Fecha os olhos. O peixinho mereceu. Está mais perto de você para que possa lembrar, olhar, fortalecer, saber que em seu peito não pode mais entrar o que não faz parte de seu trabalho. Olha no espelho quando for preciso: traz contigo a espada, a rosa e o maracá. Gira teu maracá encantado e acorda agora: volta a sonhar. Mas sonha lúcida. A realidade, peixinho, é aqui.
E cada palavra foi bolha, foi canto, foi a pureza nunca antes revelada. E tantas bolhas se amalgamaram que formaram uma maior ainda. A bolha envolveu a mulher, que já adormecia lenta. Foram subindo com o canto da Mãe, subindo, subindo, até estourar na cama e fazer barulho suficiente para acordar a mulher - ou trazê-la de volta a esse sonho. A programação da televisão já tinha voltado. Naquela tela, uma imagem de um veleiro ao mar. Em seu quarto, um perfume de sal preenchia o recinto. Foi fácil respirar.

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